Como conviver com as diferenças pessoais?

Junto com o sopro de vida, cada um de nós recebeu a capacidade de pensar, de refletir e de desenvolver uma consciência, uma personalidade. Cada ser humano é produto da interação de fatores biológicos, históricos, sócio-culturais e psicológicos que determinam suas características físicas, mentais e emocionais.

Na dimensão coletiva, a sociedade em que vivemos, entretanto, além de condicionar como também impõe certas rotinas por meio de normas sociais, padrões de comportamento, valores e preconceitos, que acabam se tornando nossa segunda natureza. Os sociólogos chamam essa segunda natureza de herança cultural1.

Diferenças pessoais

Por isso, saber conviver (viver com) as diferenças pessoais, a diversidade contraditória requer autoconhecimento para entender as vicissitudes dos outros. Por meio de testes de perfil de personalidade bem elaborados, temos a possibilidade de diagnosticar como nos comportamos e, a partir daí, é possível identificar o perfil pessoal e profissional o que facilita a interação social.

Barros, consultor e autor dos testes, destaca2 a importância de saber primeiramente o comportamento e postura para determinar o perfil adequado para os requisitos do cargo.

O mesmo autor exemplifica questionando por que parecia ser boa pessoa e não se adaptou no trabalho? Ele explica que ela poderá se adaptar em outro tipo de trabalho e não aquele para a qual foi contratada.

Para Shinyashiki 3, consultor organizacional, “se conhecer melhor e fazer uso consciente das emoções são diferenciais para o sucesso”.

Para adaptar-se à cultura diferente que permeia no ambiente, (dimensão transcultural), é mister ter a capacidade de ouvir e respeitar as diferenças, pois o que é diferente enriquece o meio onde vivemos. Cada indivíduo é membro de um grupo social sem perder a sua individualidade e sua singularidade, (dimensão intracultural).

Segundo Araujo 4 a identidade define a pessoa como ser único, irrepetível, insubstituível e insuprível. A socialidade está presente em cada pessoa e desabrocha plenamente no contato com o outro.

De acordo com os consultores familiares José e Margarete Daldegan5, é importante que cada pessoa esteja aberta à contribuição que o outro pode dar para o seu crescimento pessoal. Eles complementam que o equilíbrio está em ser firme, sem perder a ternura.

Mas como tratar os outros com igualdade? Barbosa6, em Oração dos Moços proferiu: “A regra da igualdade não consiste senão em quinhoar desigualmente aos desiguais, na medida em que se desigualam”.

Neste contexto, a personalidade de cada pessoa é exclusiva e imutável, mas pode se adaptar às mudanças do meio. Ademais, recomenda-se respeitar a individualidade e pontos de vista (vista sobre um ponto).

“É importante adaptar-se às mudanças que acontece na mente e na vida diária das pessoas. Um ambiente multifuncional, mais flexível para atender às inevitáveis futuras mudanças, mais favoráveis aos verbos compartilhar, trocar, improvisar, transferir, conectar, interagir, participar, investigar, imaginar, criar, inovar, sonhar, planejar, cuidar, desenvolver, potencializar, comunicar, construir, analisar, solucionar, resolver, acrescentar, acessar, crescer, doar, transformar e aprender”7.

O líder especial consiste desenvolver a capacidade para se adaptar as constantes mudanças e disposição para defender suas convicções sem desprezar o ponto de vista das outras pessoas, ter estabilidade emocional e “jogo de cintura”8..

Ao líder cabe a disseminação do conhecimento e das experiências que transforma a maneira de cada indivíduo perceber o mundo em sua volta e interagir com ele: Comunicação ao estilo “one way-one way”, que significa: O diálogo não é uma via de sentido único como uma informação e sim de duas mãos. Dar e receber feed back.

Para Goleman9, em seus estudos sobre a inteligência emocional disserta, o que importa é a maneira como lidamos com nós mesmos e com os outros.

Nesta relação com os outros, geralmente as pessoas ávidas por algo novo são mais abertas, proativas, acessíveis, interagem, delegam e usam a criatividade para o inusitado e inovam o que já existe. Pessoas com tais atributos evitam ocultar informações, pois, quem subtrai conhecimento cerceia oportunidades de crescimento dos outros.

Para ilustrar o quão é importante ser aberto, Joseph Luft e Harry Ingham10 desenvolveram a Matriz de Johari, apresentada na Figura 1 a qual evidencia que a área I (o Eu Aberto), nosso comportamento é conhecido por nós mesmos e pelas outras pessoas que sabem sobre nós, como nossa maneira de expressar e nossas atitudes. Este quadrante denota habilidades no relacionamento interpessoal. Já a área II diz respeito (o Eu Cego), nosso comportamento é percebido pelos outros, mas que não estamos conscientes. O próximo quadrante III (o Eu Oculto), conhecido por mim, mas desconhecido pelos outros e, o quadrante IV (o Eu Desconhecido) por mim e pelos outros.

Matriz de Joari de diferenças pessoais

Figura 1 – Matriz de Johari. Fonte: Luft, Ingham (1955)

Os mesmos autores atrelam a Matriz de Johari com o feedback. Para eles, feedback é a oportunidade que eu tenho de transmitir a minha percepção a seu respeito (não a verdade sobre você), alimentando nossa relação (pessoal e profissional), para que ela seja mais satisfatória para nós dois (não só para mim).

Ampliando a linha do conhecimento, Rousseau11, filósofo e escritor suíço no século 18 já afirmava que “se é a razão que faz o homem, é o sentimento que o conduz”, tal relação ainda está presente nas relações humanas.

Por isso, o que mais distingue o ser humano dos outros animais? Desde os primórdios, são duas características básicas: a inteligência e a vontade. São elas que nos movem em busca de uma vida realizadora.

Se fosse preciso apontar a principal característica dos nossos dias Rocha12 afirma que não teria dúvida em dizer que é a responsabilidade de cada indivíduo por si mesmo. Sócrates, o célebre filósofo da Grécia Antiga já ensinava uma única verdade: “Conhece-te a ti mesmo”. O princípio vale até os dias atuais, com uma mínima alteração: Conhece-te e desenvolve-te.

Como buscar o autoconhecimento?

Para Schneider13 a razão maior da educação não é a de estimular os educandos a serem protagonistas e sujeitos ativos. Por ser incompleto, diferentemente dos demais seres da natureza, o que estimula à educação é ontológico, ou seja, decorre da sua própria natureza.

Nesta mesma linha, Furtado14 psicóloga organizacional, orienta que uma pessoa só poderá extrair o melhor do outra a partir do momento que ela conseguir se resolver internamente, o que nem sempre é fácil. Ela sugere começar pelo exemplo.

Para enfatizar sobre a importância de conviver com os outros, Lonata15 diz que o segredo do equilíbrio e da maturidade é que toda a pessoa nasce com um “instinto divino”, com uma exigência profunda de “doar-se em relação ao amor aos outros; doar sem empobrecer”.

Mais adiante o mesmo autor explica que, o homem tem um único objetivo na vida: ser capaz de amar. Ao contrário da sociedade contemporânea e competitiva onde o pragmatismo do Eu sobre o Nós não leva a lugar algum, pois em última instância o questionamento não é “quem sou eu”?, mas “quem somos nós? A vida é um equilíbrio entre dar e receber. Aqui consiste a alegria mais profunda da vida, a realização de si mesmo.

Só a fé pode-nos ajudar a realização pessoal, de que nós somos dignos de ser amados por Deus que, a priori, já nos aceitou. Trata-se de entregar nossa vida em suas mãos. Parafraseando o místico alemão Meister Eckart, Lonata conclui: “deixe que Deus seja Deus em você”.

Conclui-se que, apesar de semelhantes, as pessoas são diferentes comportamentalmente. Os testes permitem conhecer-se melhor a si mesmo e os outros. Sugere-se conhecer o outro lado para criarmos habilidades de como lidar com quem é diferente de nós, fortalecendo a interação e os relacionamentos interpessoais e sociais. Aprender mais sobre nós mesmos e valorizar a diversidade gera complementaridade.

Aproveitar as potencialidades humanas latentes!

“Não importa que eu tenha uma opinião diferente do outro. Mas que o outro encontre o certo, a partir de si próprio, se eu contribuir um pouco para tal” (RUDOLF STEINER).

Assim como comentou o grande poeta Sá Muray:

“Descobri que não preciso liquidar os meus defeitos que persistem dentro do meu ser. Apenas preciso lapidá-los. Por este motivo, depois que me libertei de alguns nós, descobri que muitos deles se tornaram minhas qualidades”.

O quão é importante o autoconhecimento para as nossas relações interpessoais?

Deus fez cada pessoa de forma diferenciada e singular para que encontre e realize o propósito estabelecido nessa vida. Os talentos.


Sadi Zamin
Administrador com Habilitação em Agronegócios; Pós Graduado em: Administração e Estratégia Empresarial; em Gestão Empresarial; e em Gestão Estratégica de Pessoas. Consultor e Fundador da Humanizare Desenvolvimento Pessoal e Profissional. Contato: sadi@humanizare.com.br

Sadi Zamin

PARA SABER MAIS
  1. CURY, José da Paz. Desafios gerenciais para o século XXI. Maio de 2011, p. 11 e 12.
  2. BARROS, Cícero Ferreira de. Como Selecionar, Contratar & Demitir. 3 ed. ISBN, Paraná.
  3. SHINYASHIKI, E. A vida é um milagre. A transformação pelo poder pessoal. Ed. Gente, 2010.
  4. ARAÚJO, Vera, Ponto de vista: a partir da raiz, de José Antônio Faro – Editora Cidade Nova, Ano LIII, nº 545, setembro de 2011, p.5.
  5. DALDEGAN, José e Margarete. Família em foco: Para que o amor seja maior, Editora Cidade Nova Ano LIII Nº 543, julho de 2011, p. 38.
  6. BARBOSA, R, Oração dos moços. Organização Simões, Rio, 1947.
  7. RIQUE, Nitzsche. Diretor da Animus 02. Precisamos aprender a pensar diferente. Boletim HSM de 10.09.2010.
  8. JORDÃO, Sônia, A Arte de liderar: Vivenciando mudanças num mundo globalizado, 2ª ed. Fundo de Cultura, 2004.
  9. GOLEMAN, D. Trabalhando com a inteligência emocional (1999)” www.hsm.com.br, acesado em 03.08.2011.
  10. LUFT, Joseph; INGHAM, Harrington. The Johari Window, a Graphic Model for Interpersonal Relations, UCLA-University of California, Western Training Laboratory for Group Development, Los Angeles: 1955.
  11. ROUSSEAU, Jean Jacques. Quando a emoção fala mais alto. www.hsm.com.br, acessado em 03.08.2011.
  12. ROCHA, Anderson. Você gerencia bem a sua vida? www.rh.com.br acessado em 01.01.2011.
  13. SCHNEIDER, José Odelso. Educação e capacitação cooperativa: os desafios no seu desempenho, ed.Unisinos, 2010, p.29.
  14. FURTADO, Dirce. Quando a emoção fala mais alto. www.hsm.com.br, acessado em 03.08.2011.
  15. LONATA, Pasquale. Nascido para amar. Editora Cidade Nova, ano LIII, nº 543, Julho de 2011, p.25 – 27.

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